Toda lista de canais de finanças comete o mesmo pecado da lista de livros: cita o nome, cola um adjetivo genérico ("ótimo canal", "conteúdo de qualidade") e não conta nada que ajude você a decidir se vale o seu tempo. Aqui a proposta é diferente. Para cada um dos 10 canais você vai encontrar o foco real do conteúdo, o estilo de apresentação, a formação de quem fala (quando ela existe e é verificável) e os pontos de transparência que valem saber, como cursos pagos ou uma linha ideológica declarada. Nenhum desses pontos é acusação: todo criador de conteúdo tem um modelo de negócio, e conhecer esse modelo só te deixa mais preparado para separar a informação da venda. A ordem segue, aproximadamente, do público mais iniciante ao mais técnico.
Me Poupe!
Foco e estilo: o maior canal de finanças pessoais do Brasil, com um formato que a própria apresentadora ajudou a criar no país: entretenimento financeiro, ou seja, educação com ritmo e humor de programa de TV. Orçamento, dívida, consumo consciente e primeiros investimentos, sem economês.
Quem apresenta: formada em Jornalismo, trabalhou como repórter e apresentadora no SBT e depois na Record antes de sair da TV, em 2015, para se dedicar ao canal. Tem certificações em planejamento financeiro (Insper e DSOP), mas não é economista nem possui certificação CFP.
Vale saber: hoje comanda um ecossistema bem maior que o canal, incluindo cursos, um aplicativo de organização financeira e parcerias comerciais com instituições do mercado (B3, Tesouro Direto, Mercado Pago). Segundo ela, encerrou publicamente todas as publicidades tradicionais do canal em 2020 por razões éticas declaradas por ela mesma; vale conferir a posição atual antes de assumir que isso continua valendo exatamente assim.
Ver canalPrimo Pobre
Foco e estilo: educação financeira dirigida especificamente a quem ganha pouco, sem o tom professoral de quem nunca passou aperto. Sair do vermelho, cortar o supérfluo, guardar os primeiros reais e distinguir riqueza de ostentação, com humor e linguagem bem direta.
Quem apresenta: caminho pouco convencional para o nicho, passando por conservatório de música, estudos de teologia e produção audiovisual antes de se dedicar ao canal. Não é apresentado em nenhum lugar como profissional certificado em finanças; a credibilidade do canal vem da identificação com o público, não de diploma técnico.
Vale saber: teve um crescimento bem documentado, saltando de poucas dezenas de milhares para centenas de milhares de inscritos em poucas semanas depois que um vídeo sobre amortização de financiamento viralizou. Não foi identificado um curso pago como produto central do canal, ao contrário de vários outros nomes desta lista.
Ver canalNath Finanças
Foco e estilo: orçamento realista, dívida e primeiros passos para quem vive de salário mínimo a renda média, com linguagem popular e nenhuma pretensão de fórmula mágica. O próprio posicionamento do canal, "finanças para pessoas reais", resume a proposta.
Quem apresenta: pós-graduada em gestão financeira pela FGV, cresceu em família de baixa renda em Nova Iguaçu (RJ). É frequentemente descrita como pioneira em levar conteúdo financeiro a um público historicamente pouco atendido por esse tipo de mídia, e sua trajetória pessoal é parte central da proposta do canal.
Vale saber: fundou uma plataforma própria de cursos e conteúdo (Nath Play) e publicou dois livros, um deles infantil sobre educação financeira. Em 2023 passou a integrar um conselho federal ligado a desenvolvimento social e econômico. É um canal de porte bem menor que os outros mais populares desta lista, o que também significa uma proposta mais de nicho.
Ver canalGustavo Cerbasi
Foco e estilo: planejamento financeiro, dinheiro em família e casal, e o que ele chama de equilíbrio de vida, mais próximo de consultoria e palestra do que de entretenimento de YouTube. É o nome mais ligado à mídia tradicional dos dez, com carreira que começou décadas antes da onda de criadores de conteúdo.
Quem apresenta: mestre em Finanças pela USP e graduado em Administração Pública pela FGV-SP, atua como consultor, professor e palestrante desde 1999. É o único da lista cuja formação acadêmica formal em finanças é claramente documentada e checável.
Vale saber: autor de mais de dez livros com milhões de exemplares vendidos, incluindo um best-seller finalista do Prêmio Jabuti (o mais importante prêmio literário do Brasil). Também vende cursos e materiais próprios. É embaixador de marca de uma montadora de automóveis, uma parceria comercial fora do universo financeiro que vale citar por transparência.
Ver canalO Primo Rico
Foco e estilo: mentalidade, empreendedorismo, carteira e renda variável, com entrevistas de peso no podcast PrimoCast. Produção do mais alto padrão de toda a lista, com tom aspiracional declarado no próprio nome do canal.
Quem apresenta: começou Relações Internacionais na ESPM em 2008 e fundou uma consultoria de investimentos (Investpartner) antes da carreira de conteúdo decolar. Não há indicação de que seja economista ou possua certificação profissional formal em finanças; costuma usar publicamente a história de ter perdido, aos 18 anos, os primeiros R$ 5 mil que investiu.
Vale saber: é, de longe, a operação comercial mais extensa desta lista. O grupo por trás do canal reúne cerca de 20 marcas, incluindo plataformas de assinatura próprias, investimentos em dezenas de startups e uma receita reportada na casa das centenas de milhões de reais. Vale entrar sabendo que o canal é a ponta visível de um negócio bem maior, com produtos pagos por toda parte.
Ver canalEconomista Sincero
Foco e estilo: economia, ações, FIIs e renda fixa, com um jeito direto de destrinchar promessas furadas do mercado. O apelido "Charlão da Massa" resume a proposta: economia explicada para quem não é do mercado, sem enrolação.
Quem apresenta: economista formado pela UERJ, com dois MBAs (UFF e FGV), um dos poucos desta lista com formação acadêmica específica em economia. Passou por mercados tradicionais, incluindo opções e day trade, experiências que hoje usa como alerta sobre os riscos da especulação.
Vale saber: foi eleito três vezes principal influenciador de investimentos pela ANBIMA, a associação que reúne as instituições do mercado financeiro brasileiro. Não foi identificada uma linha ideológica explícita como a de outros nomes desta lista; o foco declarado é a "sinceridade" da análise, não uma escola econômica específica.
Ver canalInvestidor Sardinha
Foco e estilo: renda passiva, análise de empresas e FIIs, com bastante interação com a comunidade. O nome já entrega o público-alvo: "sardinha" é a gíria do mercado para o investidor pessoa física iniciante, e o canal se posiciona como quem ajuda esse investidor a parar de ser presa fácil.
Quem apresenta: empreendedor desde jovem, passou por desenvolvimento web e redação antes de fundar o canal em 2019. Não é apresentado como economista nem profissional certificado; defende publicamente uma estratégia de buy and hold e recomenda que o iniciante comece pela renda fixa antes de partir para análise de ações.
Vale saber: vende cursos de investimento próprios através de uma plataforma de educação que também mantém, então há uma relação comercial direta entre o conteúdo gratuito do canal e os produtos pagos oferecidos. É, dos dez, um dos canais de porte menor em número de inscritos.
Ver canalBruno Perini
Foco e estilo: alocação de patrimônio com visão global (ações, exterior, ouro, cripto), sempre explicando o "porquê" da escolha antes do "o quê" comprar. O tom é disciplinado e estruturado, algo que várias fontes atribuem à formação militar do apresentador.
Quem apresenta: formado pela Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN) em 2010 e ex-capitão do Exército, deixou a carreira militar em 2016. Não tem formação acadêmica em economia ou finanças; construiu a reputação com base em experiência pessoal de investidor.
Vale saber: vende cursos próprios de investimento e defende publicamente uma linha de economia com influência da Escola Austríaca, argumentando que o controle estatal sobre a moeda prejudica o cidadão comum, uma posição ideológica explícita que vale ter em mente ao assistir. Comanda também um podcast com a esposa, igualmente criadora de conteúdo na área.
Ver canalClube do Valor
Foco e estilo: value investing com método: carteiras sistemáticas, estudos com dados históricos e a filosofia de Graham e Buffett aplicada ao Brasil. Menos opinião solta, mais evidência e backtest. Combina bem com o nosso artigo sobre Graham e Bazin.
Quem apresenta: cofundador do Clube do Valor, com cerca de uma década de experiência como investidor. Não foi confirmada uma certificação profissional específica (como CGA, CEA ou CFP); a credibilidade apresentada é construída sobre tempo de mercado e o histórico público das carteiras do clube.
Vale saber: este é o único nome da lista cuja operação é também, formalmente, uma empresa de consultoria e gestão patrimonial registrada, atendendo milhares de famílias com serviços de alocação, eficiência tributária e planejamento sucessório, além do conteúdo gratuito e dos cursos pagos. Vale saber que existe um interesse comercial direto em produtos financeiros específicos, para além da audiência do canal.
Ver canalFernando Ulrich
Foco e estilo: macroeconomia, teoria monetária e Bitcoin, com profundidade acadêmica e uma linha de raciocínio clara, mas o mais teórico e menos "prático no dia a dia" dos dez. Menos vídeo de canal próprio e mais participação em entrevistas, aulas e podcasts.
Quem apresenta: graduado em Administração pela PUC-RS, com mestrado em Economia da Escola Austríaca pela Universidad Rey Juan Carlos, em Madri. Foi um dos primeiros economistas brasileiros a estudar Bitcoin a sério, e é hoje professor na PUC-RS e conselheiro do Instituto Mises Brasil, entidade ligada ao pensamento econômico liberal-libertário no país.
Vale saber: defensor declarado da Escola Austríaca de Economia e do Bitcoin como alternativa ao que chama de monopólio estatal da moeda, uma posição ideológica explícita e bem documentada, citando influências como Murray Rothbard. É leitura (e vídeo) obrigatório para entender o raciocínio por trás dos preços, mas vale assistir sabendo que o ponto de partida é uma escola de pensamento específica, não um consenso do mercado.
Ver canalBônus: Mais Valor, o canal da casa
Sim, nós também vamos ter um canal, e ele ainda não estreou por um bom motivo. Nos últimos meses, em vez de correr para publicar vídeos, escolhemos construir primeiro a base: este site que você está navegando, com cotações e indicadores atualizados diariamente, o Simulador de Carteiras com backtest de dados reais da B3, a Calculadora de Investimento, a Carteira completa com IRPF e proventos, rankings, comparador e estes artigos. Perfeccionismo? Culpados. Mas foi de propósito: quando os vídeos chegarem, cada um já nasce com ferramenta pronta pra você aplicar na hora o que aprendeu. Sem promessa vazia, sem "link na bio" que não entrega.
Se você gostou do que viu por aqui, o melhor jeito de acompanhar a estreia é se inscrever agora, assim o YouTube te avisa no primeiro vídeo:
Inscrever-se no canal Mais ValorComo avaliar qualquer canal de finanças
Quatro perguntas antes de seguir um conselho financeiro de vídeo: quem está falando tem formação ou credencial verificável no assunto específico, ou só experiência pessoal? Existe algo sendo vendido (curso, corretora parceira, produto) junto com o conselho? A pessoa declara uma linha ideológica ou filosófica (Escola Austríaca, value investing, entretenimento financeiro) que molda as recomendações? E, principalmente: o conselho é genérico ("todo mundo deveria fazer X") ou considera que a sua situação financeira é diferente da de quem está na tela? Nenhuma resposta errada aqui desqualifica um canal, mas conhecer as respostas muda o quanto de peso dar a cada opinião.
Como consumir sem se perder
- Escolha 2 ou 3 canais do seu nível, porque seguir todos gera ruído, não aprendizado.
- Desconfie de unanimidade e de urgência: "compre agora antes que suba" não é educação, é marketing.
- Vídeo bom vira ação: aprendeu um conceito? Aplique nas ferramentas do site ou aprofunde nos nossos outros artigos e nos 10 livros essenciais.
- Opinião de youtuber não é recomendação personalizada: nenhum canal (incluindo o nosso) conhece a sua vida financeira.